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De óculos

Martha Medeiros

Já comentei numa coluna anterior que ando com a visão cada vez mais prejudicada e que já não posso desgrudar dos meus óculos com lentes multifocais, que me ajudam a não comprar produtos com prazo de validade vencido e a não confundir os discos do Gershwin com os da Gretchen.

Mas hoje a homenagem vai para outro tipo de óculos, tão necessários quanto aqueles que nos permitem ver o mundo com foco. Estou falando dos óculos escuros, este acessório revolucionário. Reconheçamos: se os óculos de grau nos deixam com um ar inteligente, os óculos de sol fazem a mágica de nos transformar numa pessoa bonita. Ou mais bonita, caso você já seja lindo. Sem cirurgia, sem aplicação de botox, sem intervenções artificiais. Simplesmente um óculos no rosto e você ganha tudo o que sempre sonhou: jovialidade e charme, e ainda cria uma bela expectativa em quem ainda não viu você sem eles.

Não conheço um único cristão que fique feio de óculos escuros. Nem mesmo os muito feios. Todo mundo acaba ganhando um crédito de confiança. A não ser que, além de feio, tenha muito mau gosto pra óculos. Eu, por exemplo, acho infernais óculos cheios de adereços e logotipos dourados, aquela coisa tipo perua do seriado Dallas, mas no geral todo mundo acerta, mesmo com óculos de camelô a 10 "real". Óculos escondem olheiras, escondem bolsas sobre as pálpebras, escondem o inchaço causado por um choro, escondem pés de galinha, escondem conjuntivites, escondem os efeitos de hábitos tabagísticos ilegais, escondem nossa melancolia e ainda protegem dos raios ultravioletas, se as lentes forem boas. Mas o que realmente dá credibilidade aos óculos escuros é o mistério por eles conferido. Sem as pupilas à mostra, quem somos nós ali atrás? Não poder olhar nos olhos é perturbador e excitante ao mesmo tempo.

É por isso que outro dia me intriguei quando uma conhecida franziu os olhos numa tarde ensolarada. Perguntei a ela por que não colocava seus óculos. Ela respondeu: "não uso". Como assim não usa? "Nem tenho", disse-me ela. "Nunca me acostumei". E colocou um boné para se proteger, no que ficou bem bonitinha, mas os olhos continuaram franzidos e criando rugas que um dia ela vai querer passar a ferro. É alguma maluca? Olha, é uma mulher de personalidade. Uma mulher que não é maria-vai-com-as-outras. Que criou sua própria maneira de lidar com a claridade. Que não depende de modismos. E indiscutivelmente maluca, óbvio.

Dizem por aí que, neste verão, os acessórios de cabeça estão em alta. Vale faixas coloridas para segurar cabelos rebeldes e chapéus estilo cowboy para usar na praia. Que vinguem, mas um bom par de óculos escuros - grandes, médios ou mínimos - segue imprescindível. Homens e mulheres semi-escondidos, só com suas bocas de fora, me diga se há algo mais sensual. E inquietante. Por mais que quase tudo esteja à mostra - metade do rosto e o corpo inteiro - por trás dos óculos, baby, é que se esconde nossa alma.


Domingo, 28 de janeiro de 2007.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.